sábado, 28 de maio de 2011

Um outro lugar

Imagine um lugar
Um lugar o mais  longe que puder
E coloque-se lá
Seria feliz então?
Acredito que não...

Esta vontade de não estar aqui
Esta vontade de não ser, não ver, não querer
Está dentro em nós, em algum lugar que não podemos alcançar

Que faremos então para que nossa mente alcance este lugar
Que parece não existir fisicamente,
Mas que é um lugar em que nosso eu deseja estar
Não é aqui, é outro lugar

Outro lugar,  seria dentro de nós mesmos então?
Mas é de dentro que grita por mudanças
 E vem este anseio
Desta tristeza de existir
De achar que em outro lugar
Longe de nós mesmos
Existiria a paz
A paz que não se sente 
Aqui neste lugar....

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Inquietações

Sei que faço parte do universo
mas, ao mesmo tempo sinto-me estranho dentro dele.
Sei que o sol,o mar, a terra e
tudo, é feito de uma matéria da qual também sou feito,
mas, sinto que sou muito mais além disso tudo.

Procuro um lugar nesta imensidão do universo,
mas, não encontro meu lugar.

Por que o pensar, o duvidar, se tudo é feito apenas
para que contemplemos e aceitemos.
Tudo já estava aqui. 
Tudo já existia quando aqui cheguei,
as coisas que realmente importam.
São elas que me fazem sentir assim tão estranho
porque  sinto-me frágil diante de sua eternidade.
Embora saiba também que um dia elas mudam de lugar e forma,
mas não sei se estarei aqui para ver tudo isso.

Gosto de me comparar aos outros seres viventes.
Como será que olham este mundo, será que questionam,
será que se inquietam assim como eu?

Procuro me apegar e aceitar as coisas que tenho,
mas elas não me bastam, falta algo.
E enquanto não  encontro continuo minha busca
que  pode terminar logo
ou nunca terminar.
Existir,
muito além de mim.

           (Para Elvis)


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste. José Saramago

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Sobre ela...

Ela achava que tinha vindo ao mundo para servir. Só para servir aos outros. Ela vinha depois. Na sua simplicidade e humildade achava que tinha de ser assim. Assim ela tinha visto sua mãe agir, e sua avó...tempos antigos. Nunca se modernizou, nunca pensou que mulher tinha direitos como ser humano. Para ela, mulher  vinha depois dos homens. E assim nos ensinou, suas filhas mulheres. Ficou despontada quando nos viu agir diferente do que nos tinha ensinado. E se decepcionou quando nos rebelamos a esta condição. Mas era só ternura, delicadeza e determinação. Cuidava muito bem de sua reputação. Era íntegra, não fazia aos outros o que não gostaria de receber. Jamais se alterava, jamais feria alguém, mesmo que dessem motivos. Se tivesse que citar alguém pela retidão, seria ela. Nunca a vi cometer um ato impensado ou indigno. Mesmo que isto custasse ser vista como omissa ou conformada. Não se importava. Ela procurava sempre fazer o melhor para que todas as pessoas que com ela entrasse em contato, ficassem satisfeitas com seu tratamento impecável.
Sabia ser mãe, sem deixar de ser o Ser. Era seu modo de agir igual com todos. Um certo cuidado, uma certa ternura, mas na medida, sem tomar partidos, dentre seus filhos nunca tivemos motivos para ter ciúmes do seu amor. Era na medida exata igual para todos. E olha que foi mãe de muitos filhos naturais, de parto natural, com parteiras curiosas. Já quase no fim, com o Alzheimer penetrando devagarinho em seu ser, mesmo assim não deixou de lembrar e reconhecer cada rosto amado. Talvez tivesse feito de tudo para não chegar ao esquecimento total, pois não era da sua natureza magoar quem quer que fosse, imagine seus filhos e netos . Mãe, sem elas não existiríamos ou não tivéssemos sobrevivido sem seus cuidados, tão dependentes somos quando com pouca idade. Há de se levar em conta no mínimo isto. Se estamos aqui, lendo ou escrevendo, é porque alguém se doou, cuidou, não importa se aquela que nos deu a luz, mas se foi por ela, foi muito melhor, porque o cheiro, a presença ficam impregnados em nós. E levamos isto para sempre como um tesouro de valor incalculável, mas que ninguém jamais nos poderia roubar. Hoje, a compreendo muito mais, do que quando era mais jovem, talvez porque a maturidade nos dá este dom de perceber que, não importa o destino que você escolheu para sua vida, mas sim se você vai sair dela com a sensação de dever cumprido, assim como minha mãe cumpriu tão bravamente e corretamente o seu.