domingo, 31 de julho de 2011


Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mãos incríveis tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou viro santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias,
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
a lua, os gerânios e ele serão os mesmos,
só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
como a fecharei, se não for santa?
                                                         (Adélia Prado)

domingo, 24 de julho de 2011

Palavras do gótico Fernando Pessoa

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: "Navegar é preciso, viver não é preciso."
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para casar com o que sou; viver não é necessário, o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa raça.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Como queria estar agora, leve, solta, num mar de calma e suavidade, mas sinto-me como um ramo enroscado em pedras e obstáculos que não me deixam seguir o rumo natural.
Sei que em algum momento vou  conseguir sair, mas até lá, vou estar tentando entender porque situações que não procurei ou provoquei me fizeram chegar até aqui.

Amigos

Nunca fui de muitos amigos
Sempre foram muito poucos
Em cada tempo da minha vida
Um amigo ou amiga, talvez dois
O suficiente para que não estivesse totalmente só.

Amigos às vezes são, às vezes estão
Só saberemos muito tempo depois
Quando aquele período passar
E em nova situação
Os que restaram , ou o que restou
De uma amizade que prometia ser eterna.

Somos como imãs. E as vezes funcionamos ao contrário.
Muitas vezes, atraimos ou repelimos e nunca entendemos porquê.
Estrelas, todos somos.
Só que muitos ainda  preferem transitar ao redor de outras
Como  cometas que passam, mas nunca permanecem
Rodeiam apenas  enquanto for conveniente
Para seus propósitos definidos.

Certos artistas acham que fãs são amigos
Mas um fã assassinou seu ídolo.
Chefes exigem que subordinados sejam seus amigos
Pais tem certeza que irmãos também tenham que ser.

Mas amigos tem um quê de especial
Não precisa estar sempre junto
Só precisa existir
E quando você precisar que alguém se importe
Com a sua alegria, sua tristeza ou sua dor,
Lá vai estar seu amigo.

Já me enganei muito, todos se enganam
Porque não é fácil reconhecer um amigo
Às vezes leva algum tempo para perceber
Às vezes é no mesmo instante em que o vê.
Nestes caos, são encontro de almas
A melhor forma de encontrar um amigo.

Sei que hoje posso ver o que não via antes
Amigos são os que te olham por dentro
E gostam do que veem
Não se importam com a estampa
Só com o conteúdo do seu ser.
Este é aquele que não está
Mas sendo realmente
Seu verdadeiro amigo.

sábado, 9 de julho de 2011

O Adolescente

A vida é tão bela que chega a dar medo.

Não o medo que paralisa e gela,
estátua súbita, 
mas
esse medo fascinante e fremente de curiosidade que faz
o jovem felino seguir para a frente farejando o vento
ao sair, a primeira vez da gruta.

Medo que ofusca: luz!

Cumplicentemente,
as folhas contam-te um segredo
velho como o mundo:

Adolescente, olha! A vida é nova...
A vida é nova e anda nua
- vestida apenas com o teu desejo!
  
(Mario Quintana)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Época sombria...

Há muitas histórias e escritos sobre a época de obscurantismo chamado "Governo Militar" no Brasil. Muitas vozes e vidas inteligentes sucumbiram pelos instrumentos de tortura por aqueles que diziam estar defendendo o país do "comunismo". Um dos relatos de uma das vítimas me tocou particularmente por causa da intensidade com que questiona o poder, a vida  e a fé do ser humano.
"Mãe, você me pergunta se eu acredito em Deus.
Eu te pergunto: que Deus?
Tem sido minha missão te mostrar Deus no homem.
Pois somente no homem ele pode existir.
Não há homem pobre ou  insignificante que pareça ser, que não tenha uma missão.
Todo homem, por si só, influencia a natureza do futuro.
Através de nossas vidas, nós criamos ações; que resultam na multiplicação de reações.
Esse poder, que todos nós possuimos, esse poder de mudar o curso da história é o poder de Deus.
Confrontado com essa responsabilidade divina, eu me curvo diante do deus dentro de mim."

(Stuart Edgard Angel Jones) 

                                             (Carta a Zuzu Angel)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Simplesmente Clarice...

Clarice sabia como ninguém, se rasgar com palavras, muitas que gostaríamos de dizer e  só ela sabia como.
Ela não tinha medo, e as palavras fluiam, como a força das águas na correnteza. Ela era uma mulher que soube expor todos os seus medos, anseio, solidão e medo na sua literatura. E era ótima nisso. Imagino que talentos traz  a se revelar assim, Inconfundível.
Esta autocrítica que temos mas que ninguém soube colocar como ela.
Ou ela ou suas personagens, não importa, Clarice era  portadora de sentimentos e sensações muito comuns a qualquer um de nós. Nossa porta-voz.
Nunca conseguimos nos definir, mas vivemos tentando
Clarice desvendou nosso mistério.