sábado, 25 de junho de 2011

Caio Fernando Abreu



“Tinha esquecido o perigo que é colocar o seu coração nas mãos do outro e dizer: toma, faz o que quiser.”
“Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros.”
“Repito sempre: sossega, sossega – o amor não é para o teu bico.”
“Não se engane comigo, é na bagunça que eu me arrumo.”
“Sempre há alguma coisa que falta. Guarde isso sem dor. Embora, em segredo, doa.”
“E me dá uma saudade irracional de você.”
“Venha quando quiser, ligue, chame, escreva – tem espaço na casa e no coração, só não se perca de mim.”
Quando você não tem amor, você ainda tem as estradas.”




“…e essa falta cresce à cada dia, de forma avassaladora…quando enfim penso que estou me acostumando, que estou te esquecendo,
você ressurge de forma inesperada ocupando todos os espaços, transbordando de

dentro de mim... e é nessa inconstante loucura que vivo sem te ter.”


Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso é, às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como ‘estou contente outra vez’
…” 

“Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida me enfia goela abaixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezado-como-um-cão e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar.”

“Sempre há alguma coisa que falta. Guarde isso sem dor. Embora, em segredo,doa.”

“Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguirá alcançá-la.”

“Amigos não ’são para essas coisas’, não. Isso é um clichê detestável, significando quase sempre que amigo é saco de pancadas, é uma espécie de privada onde o outro pode jogar objetos, detritos imundos e dar descarga. Amigos são para dividir o bem e o mal, mas também para deixarem as coisas sempre limpas entre eles – amigos devem ser solidários. Um dos meus maiores amigos, [...], que vive em Paris há quase 30 anos e é soropositivo há 9 (mas graças a Deus saudabilíssimo), tem sempre a preocupação de ser útil aos amigos. Quase não fala, não envia flores, não escreve cartas – mas quando procurado está sempre ali, firme e cheio de informações práticas para ajudar a gente. Amigos são também para escrever cartas enormes e um tanto idiotas como esta, cheia de carências, porque gostam de outros amigos e não querem que as relações de amizade tombem nesse poço nojento de brutalidade e vulgaridade que viraram os anos 90″

"... Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo, sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo esses dois portos gelados da solidão é vera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o eterno do perecível, loucos".

"Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo"


"Tenho a impressão que a vida, as coisas foram me levando. Levando em frente, levando embora, levando aos trancos, de qualquer jeito. Sem se importarem se eu não queria mais ir. Agora olho em volta e não tenho certeza se gostaria mesmo de estar aqui."


"Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente?
Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido."


"Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina."


"Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora."

"Não sei, deixo rolar. Vou olhar os caminhos, o que tiver mais coração, eu sigo."


"As minhas verdades me bastam, mesmo sendo mentiras."

"Penso: quando você não tem amor, você ainda tem as estradas."

"Não espero nenhum olhar, não espero nenhum gesto, não espero nenhuma cantiga de ninar. Por isso estou vivo. Pela minha absoluta desesperança, meu coração bate ainda mais forte. Quando não se tem mais nada a perder, só se tem a ganhar.
Quando se pára de pedir, a gente está pronto para começar a receber. O futuro é um abismo escuro, mas pouco importa onde terminará a minha queda. De qualquer forma, um dia seremos poeira. Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos no mesmo barco furado, e nosso porto é desconhecido. Você tem seus jeitos de tentar. Eu tenho os meus. Não acredito nos seus, talvez também não acredite nos meus próprios. Não lhe peço que acredite em mim".

"É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado."

"...por que, então, cultivar roseiras se, quando tudo está crescido, é nelas que você se corta?"

gosto de pessoas doces, gosto de situações claras - e por tudo isso ando cada vez mais só."

'eu não sabia, eu morria, eu nascia sucessivamente, em desespero, eu compreendia súbito. Não, não era amor. Era terror.'

"Seja como for, continuo gostando muito de você - da mesma forma -, você está quase sempre perto de mim, quase sempre presente em memórias, lembranças, estórias que conto às vezes, saudade..."

"Não é verdade que as pessoas se repitam. O que se repetem são as situações"

" Somos inocentes em pensar, que sentimentos são coisas passíveis de serem controladas. Eles simplesmente vêm e vão, não batem na porta, não pedem licença. Invadem, machucam, alegram (...) " 

Um comentário:

Ellvis disse...

Post digníssimo! Caio Fernando Abreu, são tão profundas suas palavras. ♥