segunda-feira, 23 de maio de 2011

Inquietações

Sei que faço parte do universo
mas, ao mesmo tempo sinto-me estranho dentro dele.
Sei que o sol,o mar, a terra e
tudo, é feito de uma matéria da qual também sou feito,
mas, sinto que sou muito mais além disso tudo.

Procuro um lugar nesta imensidão do universo,
mas, não encontro meu lugar.

Por que o pensar, o duvidar, se tudo é feito apenas
para que contemplemos e aceitemos.
Tudo já estava aqui. 
Tudo já existia quando aqui cheguei,
as coisas que realmente importam.
São elas que me fazem sentir assim tão estranho
porque  sinto-me frágil diante de sua eternidade.
Embora saiba também que um dia elas mudam de lugar e forma,
mas não sei se estarei aqui para ver tudo isso.

Gosto de me comparar aos outros seres viventes.
Como será que olham este mundo, será que questionam,
será que se inquietam assim como eu?

Procuro me apegar e aceitar as coisas que tenho,
mas elas não me bastam, falta algo.
E enquanto não  encontro continuo minha busca
que  pode terminar logo
ou nunca terminar.
Existir,
muito além de mim.

           (Para Elvis)


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste. José Saramago

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Sobre ela...

Ela achava que tinha vindo ao mundo para servir. Só para servir aos outros. Ela vinha depois. Na sua simplicidade e humildade achava que tinha de ser assim. Assim ela tinha visto sua mãe agir, e sua avó...tempos antigos. Nunca se modernizou, nunca pensou que mulher tinha direitos como ser humano. Para ela, mulher  vinha depois dos homens. E assim nos ensinou, suas filhas mulheres. Ficou despontada quando nos viu agir diferente do que nos tinha ensinado. E se decepcionou quando nos rebelamos a esta condição. Mas era só ternura, delicadeza e determinação. Cuidava muito bem de sua reputação. Era íntegra, não fazia aos outros o que não gostaria de receber. Jamais se alterava, jamais feria alguém, mesmo que dessem motivos. Se tivesse que citar alguém pela retidão, seria ela. Nunca a vi cometer um ato impensado ou indigno. Mesmo que isto custasse ser vista como omissa ou conformada. Não se importava. Ela procurava sempre fazer o melhor para que todas as pessoas que com ela entrasse em contato, ficassem satisfeitas com seu tratamento impecável.
Sabia ser mãe, sem deixar de ser o Ser. Era seu modo de agir igual com todos. Um certo cuidado, uma certa ternura, mas na medida, sem tomar partidos, dentre seus filhos nunca tivemos motivos para ter ciúmes do seu amor. Era na medida exata igual para todos. E olha que foi mãe de muitos filhos naturais, de parto natural, com parteiras curiosas. Já quase no fim, com o Alzheimer penetrando devagarinho em seu ser, mesmo assim não deixou de lembrar e reconhecer cada rosto amado. Talvez tivesse feito de tudo para não chegar ao esquecimento total, pois não era da sua natureza magoar quem quer que fosse, imagine seus filhos e netos . Mãe, sem elas não existiríamos ou não tivéssemos sobrevivido sem seus cuidados, tão dependentes somos quando com pouca idade. Há de se levar em conta no mínimo isto. Se estamos aqui, lendo ou escrevendo, é porque alguém se doou, cuidou, não importa se aquela que nos deu a luz, mas se foi por ela, foi muito melhor, porque o cheiro, a presença ficam impregnados em nós. E levamos isto para sempre como um tesouro de valor incalculável, mas que ninguém jamais nos poderia roubar. Hoje, a compreendo muito mais, do que quando era mais jovem, talvez porque a maturidade nos dá este dom de perceber que, não importa o destino que você escolheu para sua vida, mas sim se você vai sair dela com a sensação de dever cumprido, assim como minha mãe cumpriu tão bravamente e corretamente o seu.

sábado, 30 de abril de 2011



Chorar não resolve, falar pouco é uma virtude, aprender a se colocar em primeiro lugar não é egoismo. Para qualquer escolha se segue alguma consequência, vontades efêmeras não valem a pena, quem faz uma vez, não faz duas necessariamente, mas quem faz dez, com certeza faz onze. Perdoar é nobre, esquecer é quase impossível. Quem te merece não te faz chorar, quem gosta cuida, o que está no passado tem motivos para não fazer parte do seu presente, não é preciso perder pra aprender a dar valor, e os amigos ainda se contam nos dedos.
Aos poucos você percebe o que vale a pena, o que se deve guardar pro resto da vida, e o que nunca deveria ter entrado nela. Não tem como esconder a verdade, nem tem como enterrar o passado, o tempo sempre vai ser o melhor remédio, mas seus resultados nem sempre são imediatos.
Charles Chaplin

Faz de Conta

Não respondo teus e-mails, e quando respondo sou ríspido, distante, mantenho-me alheio: FAZ DE CONTA QUE EU TE ODEIO

Te encho de palavras carinhosas, não economizo elogios, me surpreendo de tanto afeto que consigo inventar, sou uma atriz, sou do ramo: FAZ DE CONTA QUE EU TE AMO.

Estou sempre olhando pro relógio, sempre enaltecendo os planos que eu tinha e que os outros boicotaram, sempre reclamando que os outros fazem tudo errado: FAZ DE CONTA QUE EU DOU CONTA DO RECADO.

Debocho de festas e de roupas glamurosas, não entendo como é que alguém consegue dormir tarde todas as noites, convidados permanentes para baladas na área vip do inferno: FAZ DE CONTA QUE EU NÃO QUERO.

Choro ao assistir o telejornal, lamento a dor dos outros e passo noites em claro tentando entender corrupções, descasos, tudo o que demonstra o quanto foi desperdiçado meu voto:FAZ DE CONTA QUE EU ME IMPORTO.

Digo que perdôo, ofereço cafezinho, lembro dos bons momentos, digo que os ruins ficaram no passado, que já não lembro de nada, pessoas maduras sabem que toda mágoa é peso morto: FAZ DE CONTA QUE EU NÃO SOFRO.

Cito Aristóteles e Platão, aplaudo ferros retorcidos em galerias de arte, leio poesia concreta, compro telas abstratas, fico fascinada com um arranjo techno para uma música clássica e assisto sem legenda o mais recente filme romeno: FAZ DE CONTA QUE EU ENTENDO.

Tenho todos os ingredientes para um sanduíche inesquecível, a porta da geladeira está lotada de imãs de tele-entrega, mantenho um bar razoavelmente abastecido, um pouco de sal e pimenta na despensa e o fogão tem oito anos mas parece zerinho: FAZ DE CONTA QUE EU COZINHO.

Bem-vindo à Disney, o mundo da fantasia, qual é o seu papel? Você pode ser um fantasma que atravessa paredes, ser anão ou ser gigante, um menino prodígio que decorou bem o texto, a criança ingênua que confiou na bruxa, uma sex symbol a espera do seu cowboy:FAZ DE CONTA QUE NÃO DÓI



(Martha Medeiros)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Poema Ecológico

Onde o canto e o encanto das cascatas?
Vejo o desencanto de um líquido parecido com água
que deságua sua mágoa no túmulo da erosão.
O passarinho cantou, cantou, respirou o ar grosso
e tonteou, piou, rodopiou
e alçou vôo para qualquer lugar.
A criança comeu a fruta envenenada desvitaminada
e não aconteceu nada porque estava adaptada
a bromato e DDT.
Iludiu a fome, não se envenenou nem se nutriu
e o velho sonhou saudoso com a lface fresquinha
pingando o orvalho puro no arrebol de outras manhãs.
O trator de esteira arrancou o fruto pela raiz
e a infeliz floresta parou a festa
e ouviu a sinistra orquestra do lamento do vento
trazendo areia e plantando a paisagem cinzenta do deserto.
A máquina plagiou a árvore e fez frutos, frutos, frutos sem fim
e os vegetais sentiram-se bruscamente inúteis
pois as engrenagens multiplicara as comidas
que iam alimentar máquinas ainda vivas por uns tempos.
O robô se misturou com o homem e roncou que estava com fome
e que também tem direitos, também tem direitos...
pois trabalha direito
serviço bem feito
na produção perfeito.
E repetia: quem mais trabalha, mais come, quem mais trabalha, mais come.
E seu irmão - o computador -
Programa o drama do con-sumidor consumi-dor.
O petróleo vale tanto quanto o sangue se não mais.
A fumaça soberana ainda deixa cair uns restos de oxigênio.
E, na transparência do plástico, configura-se um futuro sem brio, sombrio.
A palavra Natureza pode voltar a ser sagrada
quando já não houver mais nada
e o robô voltar a ser brinquedo.
Sempre resta a ESPERANÇA
de o homem redescobrir este velho segredo:
que a natureza é ele e ele é a Natureza.





(Desconheço a autoria)

Mãos

As minhas mãos

percorrem o meu pensamento

afago...lamento...

da minha alma em sofrimento

(desconheço a autoria)

Qualquer dia amigo.....

 Eu tenho muitos amigos, mas um é especial.  Daqueles que não precisamos estar perto, Só saber que existe. Ele segue sua vida eu a minha. Se...